"Comer o Quê?"

“Comer o Quê?”

 

 Matéria produzida para o caderno de Gastronomia
de domingo do jornal impresso e online Hoje em Dia – atualizada em 14/03/2016

De onde vem cada ingrediente? Como foi produzido? Como foi processado? Afinal, você sabe o que você come?

Pesquisador cultural e filmmaker, Leonardo Brant traz questionamentos relacionados à alimentação em seu novo filme “Comer O Quê?”. A produção que teve pré-estreia em fevereiro, no Rio de Janeiro, servirá ao público um prato cheio com sabores, reflexões, afeto, saúde, cultura e bem estar.

“Comer O Quê” mostrará o cotidiano de personagens ligados à alimentação. Personagens como Alex Atala, Helena Rizzo e Bela Gil compõem a história da produção, que conta ainda com produtores rurais, especialistas em nutrição, gastronomia e economia.

Com uma trajetória dedicada ao desenvolvimento do setor cultural e das indústrias criativas no Brasil, Brant atua como documentarista escritor e palestrante. Leia a entrevista que realizamos com o diretor:

Você sabe o que você come.
Por que falar de comida?
Nos últimos 20 anos, eu estive envolvido com pesquisa cultural. De uns tempos para cá me dei conta de que aquilo que eu estava pesquisando tinha muito pouco efeito na vida das pessoas. Então passei a me envolver com questões culturais mais cotidianas, que tem a ver com todos nós. E comida é uma dessas coisas. As nossas escolhas em relação à alimentação dizem muito sobre quem somos, que relações desejamos manter com as pessoas ao nosso redor e com o planeta como um todo. Diz também como é a nossa relação com conosco, com nosso corpo e a nossa saúde. Os hábitos alimentares de uma sociedade são reveladores do modelo econômico.

Como era a sua relação com a comida antes do filme? E agora?
Sempre tive uma relação de pouco interesse com a comida. Há uns 10 anos fiz uma viagem para a África e contrai uma doença intestinal que só consegui curar com um regime higienista, que inclui uma dura restrição alimentar como parte do tratamento. Foi uma terapia pra mim. Passei a conhecer melhor o efeito da comida sobre o meu organismo e acabei seguindo por um bom tempo uma dieta vegetariana, somente com orgânicos. Comecei a cozinhar minha própria comida e alterei completamente minha relação com aquilo que me alimenta. De uns tempos pra cá dei uma boa relaxada na dieta, mas alguns hábitos, nunca mais perdi. Eu cozinho em casa para a família pelo menos duas vezes por semana e sempre fazemos encontros em torno da cozinha. Minha mulher é nutricionista e cozinha divinamente. Minha cozinha virou uma escola e um laboratório pra mim.

Qual critério foi utilizado na escolha das personagens?
Eu estava falando justamente da Graziela, minha mulher, que é atriz, mas também é formada e tem mestrado em nutrição. Ela e o Caio Amon são co-criadores do filme. Acho que a escolha dos personagens é um dos pontos fortes, e isso, devemos a ela, que além de realizar uma espécie de curadoria, misturando diferentes realidades, visões e percepções a respeito da alimentação, também foi responsável pela condução das entrevistas. A ideia por trás dessa curadoria é tirar a alimentação do campo do certo e do errado, nos libertar um pouco dos dogmas e dos regimes fechados. A ideia é libertar, pensar na autonomia que cada um tem de escolher o seu próprio jeito de alimentar.

Qual a previsão de estreia e em quais lugares o longa será exibido?
Agora você me pegou. A série será lançada em outubro. São 16 capítulos com cada um desses personagens instigantes. Mas o filme mesmo ainda não tem previsão de lançamento. Queremos fazer uma carreira curta no cinema, com lançamento seguido de debates temáticos sobre cultura, educação e saúde. E depois deixar o filme circular por salas independentes de forma gratuita por todo o Brasil. Contamos para isso com a distribuição da TaturanaMobi, uma equipe extraordinária especializada em distribuição alternativa. Depois disso quero encontrar um bom espaço na TV e em vídeo on demand.

Como será dividida e distribuída a série? Ela será disponibilizada gratuitamente na internet ou em outro veículo?
São 16 episódios, cada um com um personagem diferente. Vamos disponibilizar gratuitamente no canal do YouTube do filme. Considero que esta é a primeira temporada, já que pretendemos continuar filmando e distribuindo o filme. Clique aqui para acessar a websérie.

A comida, como uma identidade cultural, também exerce um papel transformador? Ela é capaz de conscientizar e mudar os hábitos de vida e as relações humanas?
Com certeza. Precisamos saber reconhecer aquilo que a nossa terra nos fornece e saber criar em cima disso. O capitalismo global nos oferta uma série de novos hábitos alimentares que além de pouco saudáveis não são nenhum pouco ecológicos. Precisamos retomar a relação com a cultura local. Um dos benefícios da alta gastronomia é este. Chefs como Alex Atala, Helena Rizzo e Neka Menna Barreto, que estão no filme, têm em comum justamente à busca por aquilo que está em nosso quintal e pode ser rico, criativo e nutritivo, além de fortalecer nossos traços identitários.

“Controle ou seja controlado”. Essa frase, dita por você em uma palestra do TED, pode também ser aplicada na relação entre a comida e as pessoas? “Você controla o que come ou é controlado pela comida?
Sem dúvida. Se você não controla, ou seja, não tem consciência sobre aquilo que está ingerindo, você será controlado pela grande indústria. Não tenho absolutamente nada contra a indústria, seja da mídia ou da alimentação, mas não podemos delegar nossa formação simbólica e nossos hábitos alimentares a ela.

Em 2013 você disse, em uma palestra, “o audiovisual só vai ser rico e diverso quando a gente tiver muitos protagonistas, muita gente fazendo audiovisual”. Esse cenário mudou? “Comer o quê?” é fruto disso?
Estamos caminhando nesse sentido, mas ainda falta muito. Uma das urgências é inserir a mídia e o audiovisual na educação de nossas crianças. O mesmo posso dizer da alimentação. Desde que realizei “Ctrl-V” (filme produzido por Brant em 2009), resolvi dedicar minha energia para produzir filmes sobre causas relevantes para o desenvolvimento da nossa sociedade. Nesse sentido, “Comer o quê?” é fruto disso também.

Para descontrair: bate dor na consciência na hora de abrir a caixinha do Big Mac?
Eu não gosto de Big Mac, acho um horror. Mas não faço vigília em cima de quem gosta. Uma vez a cada cinco anos acontece de ficar sem opção para uma comida rápida e vejo um Mac Donald’s à frente. Como sem medo de ser feliz. Depois fico dois ou três dias comendo couve e alfafa para limpar o organismo… rsrs